Déficit de atenção dos alunos merece cuidado especial nesta volta às aulas
A época de volta às aulas traz a saudade da escola, dos amigos, professores e brincadeiras. Mas, para algumas crianças, o período pode representar tristeza, muita pressão e baixa auto-estima. Crianças com dificuldade de concentração ou socialização, hiperatividade e baixo rendimento escolar podem estar com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O diagnóstico não é fácil e o transtorno pode causar muito sofrimento às crianças e adolescentes que não receberem um acompanhamento adequado.
A professora Luciane Maria da Silva é mãe de três filhos. Dois deles têm TDAH. “É uma tristeza pra gente”, confessa. Ela conta que os filhos são muito agitados, têm um rendimento escolar baixo e não se relacionam socialmente. O mais velho, Pedro, tem18 anos e já foi expulso de várias escolas. “Era muito frustrante sair com ele da escola, lá ele era visto como uma coisa”, diz Luciane. A filha de 8 anos, Maria Júlia, demorou para ser alfabetizada e encontrou muitos professores despreparados para a sua situação.
Ver os filhos com dificuldades de aprendizado e de relacionamento e tornando-se cada vez mais introspectivos levou Luciane a buscar ajuda profissional. Hoje os dois tomam medicamentos e fazem acompanhamento com psiquiatras e psicólogos. Mas a agitação não acaba. “Eles não param, mal conseguem dormir e não se cansam”, revela a mãe. Junto com a agitação, vem também a inconstância de humor e a irritação, o que dificulta o convívio com outras crianças. A pequena Maria Júlia só se acalma um pouco quando está com seus animais de estimação.
O papel da escola
O modelo de educação inclusiva, em que crianças convivem com a diferença, exige uma preparação maior dos professores. Por isso, o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do DF (Sinepe) oferece cursos de inclusão. Os professores aprendem a reconhecer as diferenças dos alunos e a trabalhar a socialização e aprendizagem destes considerando sempre suas particularidades. Para as escolas públicas existe também uma preparação orientada pela Secretaria de Educação, mas isso ainda é pouco para quem precisa lidar diariamente com tanta energia dessas crianças. A política de redução de turmas, por exemplo, só reduz uma turma de 32 alunos para 28, caso haja um com TDAH.
A professora de educação infantil Aline Ximenes diz que o trabalho com crianças portadoras de TDAH é feito respeitando as necessidades observadas para cada aluno e seguindo a indicação do profissional de saúde responsável. Caso a família ainda não saiba que a criança possui o transtorno, assim que notado, as escolas costumam aconselhar os pais a procurarem um especialista. Ela alerta que o diagnóstico só pode ser feito por um médico psiquiatra ou psicólogo da área. “Muitos pais se recusam a aceitar que seu filho tem uma necessidade especial e isso só atrapalha o tratamento”, afirma a presidente do Sinepe, professora Amábile Pácios.
É importante que o aluno não seja reconhecido apenas por ter um distúrbio, ressalta a professora Aline Ximenes. Ela afirma que os procedimentos de orientação e de acompanhamento das crianças com TDAH não as expõem. “A criança é tratada normalmente, faz as provas junto com as outras e tem um acompanhamento apenas se houver uma necessidade específica para isso, a única diferença é o processo de avaliação, que é pessoal e leva em conta as limitações e necessidades de cada aluno”, afirma Ximenes.
A diretora da Escola Classe 2 do Guará, Eliana Alves de Sousa, acredita que as escolas precisam de um apoio maior da Secretaria de Educação. Ela conta que as salas de aula ficam muito cheias e a presença de uma criança com TDAH torna o trabalho do professor um sofrimento. “Mesmo com a preparação que a Secretaria de Educação oferece, é comum professores chegarem chorando aqui na diretoria porque não conseguiram lidar com as crianças hiperativas.”
Eliana ressalta a importância do apoio e da compreensão dos pais. Na avaliação dela, a melhora do comportamento das crianças com o uso dos medicamentos é incrível. Mas, ainda assim, a diretora acredita que deveria haver um suporte fora da sala de aula, com alguma atividade ou orientação específica para os alunos com TDAH, como há para crianças com síndromes ou outros distúrbios. A professora e mãe de filhos com TDAH Luciane da Silva concorda que o governo deveria dar mais atenção a essas crianças.
O tratamento começa em casa
Para a terapeuta infantil Daniella Freixo de Faria, muitas vezes o diagnóstico de TDAH é dado erroneamente para simples problemas de agitação ou falta de concentração das crianças. Nestes casos, a terapeuta acredita que o problema está na estruturação familiar e na forma como os pais tratam as crianças ou agem na sua frente. Daniella afirma que uma reorganização da família (ensinando os pais a terem controle, dando limites para os filhos e tratando-os com firmeza e respeito) já é capaz de resolver praticamente todos os problemas de baixo rendimento escolar, hiperatividade e falta de concentração.
“Os pais precisam ter cuidado com o que dizem aos seus filhos. A infância é uma fase importante de formação e os filhos acabam refletindo aquilo que os pais dizem que eles são. Eles acreditam nos pais”, afirma a terapeuta. Para ela, um comentário que poderia parecer inofensivo, como chamar o filho de “mole” ou “lerdo”, pode causar um efeito similar ao TDAH. Por isso, o trabalho colaborativo entre família, escola e terapeuta são recomendados para se evitar o uso de remédios. Caso isso não resolva, o diagnóstico do TDAH pode ser feito. Mas a terapeuta insiste: “se vocês me perguntarem quantas crianças chegaram ao meu consultório com diagnóstico de déficit de atenção e depois da reestruturação familiar permaneceram com os problemas, eu digo com certeza, nenhuma”.
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